domingo, 5 de junho de 2016

O CANTO DA JAÓ













Certa vez, bisbilhotando mata adentro, fui contemplado com um espetáculo pra lá de curioso. Isso aconteceu no município de Campo Maior, no Estado do Piauí.
Quando caminhava pelo leito de um igarapé, seco pela estiagem, comecei a ouvir piados de um tipo de ave, conhecida na região por nambu jaó. Um dos piados vinha da direção do vale, o outro da aba de uma Serra. De pura curiosidade, tomei posição entre os dois e subi numa grande árvore para ver o que acontecia. Eram idênticos os piados e com a proximidade aumentava mais e mais a minha expectativa quanto ao que ia assistir; se um encontro festivo ou uma disputa entre rivais. Até que pude avistar de um lado uma jaó-mãe, acompanhada por três filhotes e, do outro, um gato selvagem caminhando, cuidadosamente, de barriga quase que arrastando pelo chão.
Aquilo, para mim, foi de perder o fôlego, preso à cena confesso nunca ter visto nada igual! Neste momento, a jaó piou e parou; o gato, já muito próximo, mas detrás de uma moita, precisava apenas repetir o piado para a jaó andar só mais alguns passos e ele agarrá-la. No entanto, o gato, que estava de orelhas murchas e o rabo trêmulo, em vez de piar, miou! Arre...! A reação da jaó foi providencial e imediata, recuou, dando um misto de pulo voo, os filhotes, que ainda não sabiam voar, aturdidos e indefesos se agacharam entre as folhas secas.
Foi então que a mãe vendo suas crias em perigo, fez-se de tonta, batendo asas e dando pulinhos, desviando a atenção do gato; enquanto os pequenos desapareceram dentro da mata fechada. Ainda assim, a jaó manteve o gato ocupado, dando-lhes investidas de bico e asas abertas, fazendo um ruído muito estranho. Ela parecia chamar para si todo o perigo, pois, na luta o habilidoso felino, por vezes, chegava a arrancar-lhe algumas penas, mesmo assim a jaó resistia bravamente à peleja. Foi quando, repentinamente, ouvi um tropel vindo em nossa direção.
Eu estava muito atento àquela cena, mas logo percebi outra começando, era um lobo-guará que vinha embalado atrás de outro gato, num pega-pega medonho. Todavia, este, numa manobra esperta, subiu numa grande árvore e o lobo passou às carreiras. Aliviado, o gato desceu e voltou, sutilmente, nas mesmas pegadas. Já o gato que lutava com a jaó, assustado com aquele rebuliço todo, desapareceu.

Foi aí que eu desci da árvore onde me encontrava e também saí de cena, pois naquele palco repleto de estrelas, senti-me um vaga-lume num dia de Sol
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Autor: Pedro Monteiro

2 comentários:

Pedro Monteiro disse...

O Conto da Jaó é inteiramente fictício, portanto, qualquer semelhança da história ou de seus personagens, será mera coincidência.
Até por que, acredito que este tipo de flagrante, só mesmo nossa imaginação pode dar.
Sobretudo, nos dias de hoje, que os "humanos" tem mais e mais, deixado para trás uma convivência harmoniosa com a natureza, sua própria origem.

Ana Rita disse...

Sorte da Jaó-mãe ter aparecido por ali o lobo guará, pois acredito q ela não deixaria a luta até ter a certeza que suas crias estariam a salvo. A nossa imaginação é mesmo muito fértil... e dela sai tantas idéias que faz até brilhar os olhos.